Doutor

26.6.2017

A canção Doutor foi escrita por alguém que é filha, sobrinha e irmã de médicos e que, no

entanto - ou talvez por isso mesmo -, tem pavor de consultório. Não à toa que todos os meus

parentes, quando a ouvem, dão risada e comentam que essa música só poderia ter sido escrita por mim.

Quem me conhece desde pequena certamente já me presenciou fugindo, de

camisola, pelas portas dos fundos do hospital, dando um tapa no ginecologista ou tendo

desmaios na hora de fazer exame. Minha irmã já disse que nunca mais me acompanha pra

fazer papanicolau porque sente vergonha alheia de me ver deitada, com as pernas abertas,

chorando e perguntando pro médico se ele está vendo algum bebê lá dentro. Ela é psiquiatra

e, ao saber disso, o doutor da vez disse, apontando para mim, “comece cuidando dessa aí”.

Mas ela é contra o uso excessivo de remédios e disse que vai usar o clipe da minha música na

propaganda de seu primeiro consultório, com o seguinte lema: "Aqui, nós respeitamos as suas

paixões". O artista é realmente um fingidor, porque a grande verdade é que eu sou totalmente

dependente dos tarjas pretas controladores de ansiedade e auxiliadores do sono. E por isso

mesmo que esta canção vai para os pacientes com quem mais tenho afinidade: os bipolares.

Um dia desses um amigo acadêmico, sociólogo, ouviu a música e me falou, todo sério, de

pernas cruzadas e com a coluna ereta: "Incrível a sua crítica foucaultiana à medicalização do

corpo e à objetificação das mulheres". Adoro esse poder da canção em parecer mais

sofisticada do que seus compositores. Ela foi inspirada, isso sim, nas conversas dos parentes

médicos em grupos de whatsapp da família (não preciso dizer mais nada, que pra bom

entendedor, meia palavra basta...).

Ao mostrar a canção para o Boi (o grande Ivan Gomes), que produziu o fonograma, percebi que ele gostou de cara. Soube disso porque ele olhou para cima rindo e balançando a cabeça, como costuma fazer ao som das canções que curte, e logo já começou a me falar de suas ideias para o arranjo. E eu

queria muito que ele tivesse participado do clipe, tocando baixo, com aquele estilo dele,

arrumando os óculos, fumando e esbarrando nos móveis, equilibrando a estante de partitura,

tudo ao mesmo tempo, desajeitado e altamente expressivo. Mas, à época da filmagem,

acabava de nascer sua segunda filha e eu achei que fazer tudo aquilo e ainda segurar um bebê

seria coisa demais pra ele dar conta.

O elenco do clipe foi escolhido a dedo. E como louco nunca assume que é, alguns convidados

se sentiram ofendidos e se recusaram a participar, como foi o caso da Solange Sá, que depois

assistiu e se arrependeu.

E ele não poderia ser filmado e dirigido por outra pessoa que não a Luiza Folegatti, nossa

querida Luds, cujo gosto artístico é uma mistura de Pina Baush, Lars Von Trier e Gretchen. E

que delícia de pessoa resulta dessa combinação! Tão bom trabalhar com alguém com quem

você tem vontade de se sentar toda semana para bater papo e tomar café! Acho que é por isso

que as pessoas acham que artista não trabalha, porque a gente se diverte.

A mesma afinidade eu tive com o Flávio, assistente de produção e de filmagem. Foi ele que

arranjou a locação, no bairro do Bom Retiro (São Paulo). Lembro até hoje da primeira vez em

que nos encontramos para conversar sobre produção. Na época ele trabalhava com um ex-

aluno meu que era ator da televisão e que pediu para ele me dar uma ajuda porque eu estava

totalmente perdida. Acostumado a acompanhar estrelas, me perguntou de quantos camarins e

cabides eu precisava e qual o cardápio eu desejava nos meus shows. Me senti tão importante!

Mas tive que explicar que eu lancei meu primeiro disco fazendo turnê em boteco, passando o

chapéu para o público jogar moedas e ganhando de jantar o famoso X-músico que, como diz a

minha irmã, é feito com os restos dos pratos dos clientes - A desgraçada, não satisfeita com seu

futuro promissor, ainda faz questão de tirar sarro da minha situação! Não fosse o fato de

gostarmos tanto de tomar café e endeusar a Maria Bethânia, geminiana como nós, acho que o

Flávio teria desistido de mim logo de cara.

Embora vazia e caindo aos pedaços, a mansão onde filmamos estava sendo habitada por um

caseiro, se é que ele existe mesmo e não era um fantasma morando naqueles escombros.

Ficamos na dúvida. Disse ele que cuida da casa enquanto os herdeiros - todos advogados e

doutores - brigam por ela na justiça. A construção já está quase inteira sem telhado e com as

paredes desmanchando. Lembra aquela música do Toquinho, a "era uma casa muito engraçada,

não tinha teto, não tinha nada..."?... Quando a briga no tribunal terminar, o vencedor vai herdar

uma vassoura para tirar o pó e deixar o terreno limpo. No momento em que dançamos todos

no mesmo cômodo, no segundo andar, o chão esteve prestes a cair. Só faltava eu, com medo

de médico, ir embora de ambulância.

A energia dentro da casa era pesadíssima! Os doutores em ciências que me perdoem, mas ela

precisava mesmo era de uns bons pais de santo. Minha amiga Carol, a loira com cara de

Courtney Love que compõe o elenco, que o diga: recebedora de cigana das fortes, Carol teve

que passar no terreiro depois da filmagem e conta que o trabalho foi tão duro que reuniram

toda a equipe para limpar o seu corpo. Ela chegou a dançar sobre cacos de espelho, que

estavam no chão somente para compor o cenário e, pasmem, saiu sem um único corte nos

pés. Que aqui fique claro que ninguém da equipe pediu para ela fazer isso!

O elenco foi composto por dois dançarinos, um performer e uma atriz. “E a Carol, o que é?”,

me perguntaram, “A Carol é a Carol. Foi convidada para ser ela mesma”. Atriz nata essa

menina. E estilista arrasadora, consegue fazer coisas lindas com pouco dinheiro. Frequenta

tanto a 25 de março que uma vez ajudou os vendedores ambulantes a fugirem da polícia,

correndo com um monte de muamba nos braços e gritando "olha o rapa!". O figurino foi todo

montado por ela, com peças do brechó (incrível!) Casa Juisi, um prédio antigo especializado

em teatro e cinema, que fica próximo ao Pátio do Colégio, no centro de São Paulo.

Chegamos na casa às 6 horas da manhã de um sábado, com a coitada da minha mãe dirigindo

o carro, carregando figurinos, acessórios, atores, leoas e câmeras. Minha mãe é uma grande

incentivadora das maluquices que eu invento, mas na hora em que eu a incluo no pacote como

motorista, assistente de maquiagem, holding, cabeleireira e montadora de cenário ela

resmunga baixinho (e pensa que eu não ouço) "o que eu fiz para merecer isso? por que ela não

desiste dessa merda?". Produção sem grana é assim, quem é parente, amigo e namorado

acaba entrando na equipe. Meu pai achou que se livraria da empreitada morando longe,

coitado! Um clipe em homenagem aos médicos não poderia deixar de receber uma ajudinha

financeira de um. Filhos artistas são realmente uns trastes, transformam seus progenitores em

mãetorista e paitrocinador. Ainda bem que a caçula saiu doutora. Minha mãe disse que eu

queria ser comunista só para roubar as riquezas dela, que no caso são um cachorro vira-lata e

dois edredons que ela trata como se fossem feitos de fios de ouro. Outro dia ela me disse que

assim que quitar as dívidas ela vai me dar de presente um edredom. Aguardo ansiosamente.

Quem também sempre topa as minhas maluquices é a Dani. Impressionante, onde tá a Bruna

inventando coisa, tá a Dani junto. Se nós fôssemos amigas quando pequenas, seríamos

daquelas crianças que, de repente, ficam quietas e a mãe, na sala, pensa "se tão em silêncio é

porque tão aprontando";. Foi a primeira vez que ela apareceu em um videoclipe sem mostrar

os peitos. Quando a convidei para participar, ela disse: "amiga, vou ficar nervosa se você me

colocar para atuar vestida!". E assim foi, até luva pusemos nela, afinal não pode faltar

adrenalina na hora de filmar, que o negócio fica frio.

A Maíra fez a louca da banheira. Se algum dos vizinhos viu sua silhueta pela janela deve ter se

apavorado pensando que era a loira do banheiro. Além de atriz, a Má é cantora, fumante -

detalhe importante, porque eu jamais convidaria para o trabalho cantores que cuidam da voz

com se fosse de porcelana - e ama a Carmen Miranda. Me identifiquei assim que a conheci,

não à toa que ela interpretou as vozes da minha cabeça.

Para maquiagens sombrias e excêntricas, contem sempre com a Júlia Klemz. Ela fez uma

pesquisa minuciosa de imagens e conseguiu criar a atmosfera que eu e Luds imaginávamos.

Parecia uma dama em um castelo, maquiando todxs e fazendo os cabelos com a maior calma,

delicadeza e paciência do mundo, no meio do caos, enquanto as divas tinham chiliques e

enchiam a cara de cachaça, porque pra dificultar a situação, aquele foi o dia mais frio do ano.

Minha mãe ficou chocada, pois é do tipo de pessoa que não consegue dormir se tiver um copo

sujo encima da pia da cozinha. Ela jamais conseguiria trabalhar naquele lugar.

Louis é o nosso felino, que não podia faltar em um clipe de cantora, depois que Valesca

Popozuda usou um tigre e declarou - com toda a razão - que ela é a diva que nós queremos

copiar. Mas ao vê-lo atuar fiquei na dúvida se quero ser a Valesca, a Beyoncé ou ele.

Tenho dúvidas, também, se na verdade eu não queria ser o Well de salto alto. O coitado teve o

azar de me conhecer algumas semanas antes da filmagem. Fui vê-lo dançar e fiquei fã. Poucos

dias depois mandei uma mensagem no facebook dizendo: “te vi dançando, adorei, tenho um

convite pra te fazer” (momento em que o artista fica todo feliz achando que vai ser chamado

para tomar champanhe e dar uma entrevista no sofá da Hebe e acaba indo parar numa casa

em ruínas, na madrugada do sábado, sem cachê).

A iluminação cor de rosa foi possível graças ao empréstimo dos leds do Chico Lima. A classe

artística é tão fodida que eu falei pro Chico me alugar o equipamento e ele me cobrou 20 reais.

Me senti mal e deixei 30. Depois de ver o nome do Chico na lista de agradecimentos, o Well

me perguntou, todo preocupado: "O Chico também participou do clipe?" Pensou que estava

com Alzheimer e tentou se explicar, dizendo que faz tantos trabalhos com o Chico que depois

não lembra em quais ele estava. Melhor não contrariar...

Por fim, quem se esbaldou em imagens feitas pela Luiza para montar, com todo o carinho e

cuidado, o site, foi a louca-mór, mistura de Maysa e Carmen Miranda, artista que eu amo

tanto, rainha dos apaixonados: Naira Marcatto. Ela não poderia, de maneira alguma, estar fora

desse projeto, só não a chamei para atuar no clipe porque eu acho que ela faria com tanta

verdade que ia correr o risco de, no fim da canção, quando falo em "abandonar a vida em um

momento de explosão", se jogar do segundo andar da casa.

Obrigada às pessoas queridas que participaram e àquelas que tiveram a paciência de ler o

texto, espero que se divirtam!

 

 

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